A porta fechada
Nem toda dúvida é sinal de fraqueza. Às vezes, é o começo de uma pergunta que adiamos por tempo demais.
Maíra Campos sabia exatamente para onde ir até o momento em que precisou escolher entre dois caminhos.
Tinha saído para resolver uma pendência simples no centro da cidade. Nada que exigisse planejamento especial: um compromisso marcado, um documento a entregar e algumas coisas que pretendia resolver antes de voltar para casa. Conhecia o endereço, havia conferido o trajeto e calculado o tempo necessário. Em condições normais, faria tudo sem dificuldade.
O imprevisto surgiu na saída de um edifício comercial, onde um corredor comprido terminava em duas passagens. Uma placa indicava a rua principal à esquerda; outra apontava para uma galeria que também dava acesso à avenida onde ela pretendia chegar.
Maíra diminuiu o passo.
Não havia motivo para hesitar. Bastava escolher uma direção, caminhar alguns metros e verificar se estava no caminho certo. Se não estivesse, poderia voltar.
Mesmo assim, permaneceu parada por tempo suficiente para que um homem desviasse dela, resmungando alguma coisa sobre pessoas distraídas.
— Desculpe — disse Maíra, afastando-se.
O homem continuou andando. Ela olhou novamente para as placas e, por fim, seguiu pela esquerda.
A escolha levou menos de um minuto. O desconforto, porém, continuou com ela durante o restante do percurso.
Não era a primeira vez que uma decisão pequena lhe parecia maior do que deveria. Nos últimos tempos, Maíra vinha experimentando uma dificuldade semelhante em situações que, até pouco antes, resolveria sem pensar duas vezes. Não se tratava de esquecer o que precisava fazer ou de perder a capacidade de organizar as coisas.
Era como se, por trás de cada escolha, surgisse uma segunda pergunta, mais difícil de responder.
Ela sabia escolher o que fazer. Já não tinha tanta certeza de saber por que queria fazê-lo.
Ao chegar à avenida, desviou de um grupo que esperava para atravessar e conferiu o horário no celular. Ainda tinha tempo. Guardou o aparelho e continuou caminhando, observando as pessoas que passavam.
Uma mulher discutia com alguém ao telefone enquanto tentava fechar a bolsa. Dois rapazes carregavam caixas, disputando espaço na calçada. Um senhor parou diante de uma vitrine, ajustou os óculos e examinou alguma coisa com a atenção de quem não tinha pressa.
A cidade estava cheia de gente indo a algum lugar.
Maíra também tinha seus destinos. Durante muito tempo, isso lhe parecera suficiente.
Havia compromissos a cumprir, responsabilidades que não podiam ser ignoradas e decisões que precisavam ser tomadas independentemente de sua disposição. Aprendera a lidar com as circunstâncias, a calcular riscos e a encontrar soluções possíveis, mesmo quando nenhuma delas era exatamente a que desejava.
Essa habilidade lhe dera segurança em muitos momentos. Quando alguma coisa saía do previsto, ela procurava entender o problema e descobrir o que estava ao seu alcance. Não esperava que a situação se resolvesse sozinha, nem costumava perder tempo imaginando como tudo poderia ter sido diferente.
Ou, pelo menos, era assim que se lembrava de ter vivido.
Agora, as perguntas sobre o que poderia ter sido diferente apareciam com uma frequência que a incomodava.
Maíra não queria passar os dias revendo decisões antigas. Sabia que a vida não oferecia a possibilidade de experimentar todos os caminhos antes de escolher um deles. Algumas decisões haviam sido tomadas com as informações que tinha, outras diante de necessidades que não permitiam muita demora.
Ainda assim, começava a desconfiar de que havia confundido, em certos momentos, o caminho possível com o único caminho que poderia seguir.
A ideia a acompanhou até o edifício onde tinha o compromisso.
Resolveu a pendência em poucos minutos. Conferiu o documento antes de entregá-lo, fez uma pergunta para evitar um problema posterior e agradeceu quando recebeu a confirmação de que estava tudo certo. Ao sair, sentiu uma satisfação breve, familiar: uma coisa a menos para ocupar a cabeça.
Era assim que gostava de resolver as questões práticas. Identificava o que precisava ser feito, tomava as providências e seguia adiante.
Na porta do edifício, porém, não sentiu a mesma clareza.
Tinha algumas horas livres antes de voltar para casa. Poderia aproveitar o tempo para caminhar pelo centro, procurar uma loja de que precisava ou simplesmente retornar mais cedo. Nenhuma opção era particularmente importante, e todas estavam ao seu alcance.
Maíra ficou olhando para a calçada, enquanto as pessoas passavam ao seu redor.
Percebeu que estava tentando encontrar uma razão suficientemente boa para escolher qualquer uma das alternativas. Como se até o tempo livre precisasse justificar sua existência, como se fazer alguma coisa sem uma finalidade definida fosse um desperdício que deveria evitar.
Escolheu caminhar.
Não sabia exatamente para onde iria, mas a decisão lhe pareceu menos difícil quando deixou de procurar a melhor resposta.
Passou por uma banca de jornais, atravessou uma rua movimentada e entrou em uma galeria comercial. O lugar era estreito, com lojas pequenas dos dois lados e uma claridade amarelada que vinha das luminárias no teto. Algumas pessoas paravam diante das vitrines; outras atravessavam o corredor com a pressa de quem conhecia bem o caminho.
Maíra diminuiu o passo para observar uma peça de roupa exposta em uma loja. Não precisava comprá-la. Gostou da cor, imaginou por um instante como ficaria vestida com ela e continuou andando.
Foi um gesto sem importância, mas percebeu que fazia tempo que não se permitia desejar alguma coisa sem imediatamente avaliar sua utilidade.
A constatação a surpreendeu.
Não porque tivesse deixado de gostar das coisas simples, mas porque parecia ter desenvolvido o hábito de submetê-las a uma espécie de interrogatório. Valia a pena? Era necessário? Cabia na rotina? Fazia sentido diante das outras prioridades?
Perguntas razoáveis, cada uma a seu modo. Juntas, porém, às vezes pareciam ocupar todo o espaço disponível.
No fim da galeria, o corredor se dividia novamente.
Uma passagem levava à rua por onde Maíra havia chegado. A outra seguia em direção a uma pequena praça, de onde seria possível alcançar uma avenida diferente. Ela conhecia a primeira saída. A segunda exigiria alguns minutos a mais para encontrar o caminho de volta.
Parou.
Dessa vez, não havia placas confusas nem um homem impaciente tentando passar. Ninguém dependia de sua decisão. Ela poderia escolher qualquer direção e não teria de dar explicações a ninguém.
Ainda assim, a hesitação voltou.
Maíra olhou para a passagem conhecida. Era a escolha mais simples, a que exigia menos esforço e oferecia menos possibilidade de imprevisto. Depois, voltou os olhos para a outra saída.
Não tinha um motivo especial para preferi-la.
Talvez fosse justamente isso que a incomodava: não conseguir justificar a escolha com uma necessidade concreta. Havia algo quase irresponsável na ideia de seguir por um caminho apenas porque ainda não o conhecia.
Ela soltou o ar devagar.
Por um instante, imaginou que as duas passagens terminassem diante de uma porta fechada. Não conseguia enxergar o que havia do outro lado de nenhuma delas. A diferença era que uma lhe parecia familiar, enquanto a outra guardava a possibilidade de encontrar alguma coisa que ainda não sabia procurar.
A imagem desapareceu tão depressa quanto surgira.
Maíra não era uma pessoa que costumasse transformar cada detalhe em sinal. Sabia que uma galeria comercial era apenas uma galeria comercial, e que escolher uma saída não tinha o poder de reorganizar uma vida inteira.
Mesmo assim, havia alguma coisa naquela hesitação que merecia sua atenção.
Talvez estivesse cansada de tomar decisões apenas com base no que parecia mais seguro. Ou talvez precisasse reconhecer que segurança e desejo nem sempre apontavam para a mesma direção.
Não sabia.
E, pela primeira vez, tentou não usar a ausência de uma resposta como motivo para encerrar a questão.
Seguiu pela passagem que levava à praça.
O caminho era mais comprido do que imaginara. Precisou contornar uma obra na calçada e parar para deixar passar um grupo de crianças que acompanhava uma professora. Em determinado momento, percebeu que havia tomado uma rua paralela à avenida que procurava e precisaria voltar alguns metros.
Nada grave aconteceu. Não perdeu um compromisso, não se atrasou para nada importante, não precisou pedir ajuda.
Apenas escolheu um caminho que não era o mais direto e descobriu que poderia corrigir a rota se fosse necessário.
Ao chegar à praça, sentou-se por alguns minutos em um banco de madeira. Perto dali, uma mulher tentava convencer uma criança a terminar um lanche; um homem alimentava os pombos, apesar de uma placa pedir que não o fizesse. A vida seguia com suas pequenas desordens, sem que ninguém parecesse precisar encontrar uma explicação para todas elas.
Maíra observou a cena e sentiu uma vontade discreta de rir.
Passara boa parte da manhã tentando encontrar a direção certa, quando, na verdade, estava apenas tentando chegar a algum lugar. O trajeto não precisava ser perfeito para que ela pudesse continuar.
Pensou, então, na própria vida. Não encontrou uma conclusão que organizasse o passado ou esclarecesse o futuro. Continuava sem saber exatamente o que desejava mudar, quais escolhas faria de outra maneira ou que caminho poderia lhe oferecer algo diferente.
Mas começou a perceber que talvez estivesse exigindo de si uma certeza que nunca tivera por completo.
Durante anos, resolvera problemas porque era necessário. Fizera escolhas porque as circunstâncias pediam, porque havia pessoas envolvidas, porque certas decisões não podiam esperar. Não havia motivo para desprezar a mulher que conseguira seguir adiante dessa maneira.
O que talvez precisasse rever era a ideia de que deveria continuar fazendo tudo do mesmo jeito.
Maíra levantou-se do banco e ajeitou a bolsa no ombro. Ainda teria de voltar para casa, organizar o restante do dia e cumprir os compromissos que a esperavam. Nada disso havia mudado.
Começou a caminhar sem consultar o celular.
Na esquina seguinte, diminuiu o passo diante de duas ruas que se encontravam. Reconheceu a avenida à direita e percebeu que a esquerda também poderia levá-la ao destino, embora por um trajeto diferente.
Dessa vez, não parou por muito tempo.
Escolheu a rua da esquerda.
Não porque tivesse descoberto que era melhor, nem porque estivesse pronta para mudar tudo o que a incomodava. Apenas porque podia seguir por ali e descobrir o que encontraria.
Enquanto caminhava, Maíra pensou que talvez a parte mais difícil não fosse decidir entre uma porta aberta e outra fechada.
Talvez fosse admitir que já não sabia se queria entrar no mesmo lugar de antes.
A resposta ainda estava longe.
E, pela primeira vez em muito tempo, ela não tentou apressá-la.